Carol Figueiredo

Carol Figueiredo

Fonte | Site Nobres do Grid


Quando ‘seu’ Jerônimo José Figueiredo veio para o Brasil, não imaginava o que o futuro lhe reservaria na nova terra. O Filho de um português com uma chinesa da ilha de Macau casou-se com uma descendente de índios – Maria Simões – aqui no Brasil e, desta miscigenação inusitada, e que só acontece em lugares especiais como o Brasil, só poderia ter como fruto um personagem único… na verdade, um filho único.

Foi neste berço tão especial que no dia 6 de outubro de 1941 nasceu em São Paulo um dos maiores pilotos da história do Brasil: Carol Simões Figueiredo: o Chinês, apelido que ganhou força entre seus amigos de juventude e que consolidou-se no meio do automobilismo.

Carol cresceu na capital do estado mais poderoso do país, e passou a sua infância numas das áreas mais nobres da cidade, morando na rua Oscar Freire e estudando onde hoje funciona o Colégio Santa Cruz, posterior- mente, no tradicional Elvira Brandão. Contu- do, ‘seu’ Jerônimo, um corretor de algodão, profissional que negociava a commodity na bolsa de mercadorias e futuro de São Paulo tinha uma paixão pelo hipismo e, por conta disto, mudou-se com a família para Santo Amaro. A mãe de Carol, não era apenas uma dona de casa, era uma artista plástica e sua influência veio incentivar a futura esposa do nosso piloto.

Carol Figueiredo (sentado no pneu) espera sua vez de correr. ao seu lado, o mentor do kartismo no Brasil: Claudio Daniel Rodrigues.

Morando perto da hípica de Santo Amaro e com um pai que praticava o esporte, foi pelo hipismo que Carol Figueiredo teve a sua iniciação no esporte. Só que o destino dele não estava limitado “a um cavalo só”… e sim a muitos. Foi quando começou a estudar no Mackenzie que a vida de Carol começaria a mudar.

Primeiro, por ser contemporâneo de Wilson Fittipaldi Jr. e José Carlos Pace. Além disso, também foi aluno do professor Rubens Carpinelli, que, mesmo sem ser ainda um fomentador do automobilismo, parece ter sido um “inoculador do ‘velocitococus’” em toda uma geração.

Carol (no centro, com o kart nº11), alinhando para a largada em uma das primeiras corridas de kart no país.

No final dos anos 50, quando passou a trabalhar em Ribeirão Preto, Carol ganhou do pai um MG, carro inglês, conversível e cujo a melhor oficina de manutenção pertencia a Claudio Daniel Rodrigues, o homem que trouxe o kart para o Brasil e construiu os primeiros karts brasileiros.

Carol alinhou com o kart numero 11 no grid da primeira prova de kart disputada no Brasil, no loteamento Jardim Marajoara, zona sul de São Paulo, em 1960, e ali começava uma história vitoriosa.

Algum tempo depois, Carol ‘herdava’ de Claudio Daniel Rodrigues o nº1 no seu kart. Um reconhecimento ao seu talento.

Dividindo o tempo entre os compromissos profissionais em Ribeirão Preto, a faculdade de Administração de Empresas e a vida nas pistas, Carol mostrava versatilidade, mobilidade e até uma criatividade que não teria lugar nos dias de hoje.

Seu kart ficava guardado na casa do amigo Valdo Cestari e, muitas vezes, ia para as provas sendo rebocado pela lambreta do amigo. Quando não – pasmem – ia pilotando, quase colado ao chão, pelas ruas paulistanas. Algo totalmente impensável nos dias de hoje. Quase tão impensável como a corrida de kart dentro de um velódromo em Buenos Aires em 1962. Era correr num oval com grande inclinação e com aqueles karts de pouquíssima potência, era uma aventura.

No início do kart no Brasil não existiam kartódromos. Corria-se em ruas, parques, praças… até parte do autódromo foi usado.

Como os primeiros pilotos da nova coqueluche do automobilismo nacional tinha em seus praticantes alguns dos jovens pilotos que se destacariam nos anos seguintes como Wilsinho Fittipaldi, José Carlos Pace, Maneco Combacau, Ângelo Alonso, Ludovino Perez, entre outros, logo veio o convite para fazer suas primeiras aparições nos carros da equipe Willys, a convite do próprio Luiz Antônio Greco.

Um momento histórico: Carol (nº1) e Maneco Combacau (nº25) disputando a ponta em uma das primeiras corridas em SP.

Na estréia, numa prova para novatos, organizada pelo Automóvel Clube Paulista, Carol começou com pé direito na equipe, vencendo a prova e tendo José Carlos Pace como segundo colocado. A partir daí, mais uma frente de batalha estava aberta na dinâmica vida de Carol, que em 1964 comprou uma fábrica de pregos em Ribeirão Preto… que pertencia ao seu futuro sogro.

Carol Figueiredo foi piloto da Mini desde o início da fabricação dos karts de Mario Carvalho e dos irmãos Fittipaldi.

Foi com os contatos em Ribeirão que Carol conheceu o seu futuro sogro, mesmo antes de conhecer sua futura esposa. Ele era um entusiasta do automobilismo e em especial do kartismo, chegando a construir uma pista de kart na cidade.

Carol preparando-se para uma de suas primeiras aparições como piloto da equipe Willys. Atrás, Greco e Luizinho checam o motor.

Foi assim, pouco depois de formado, correndo pela equipe Willys, participando de provas de kart pela recém formada Equipe Mini, com os novos karts com motores desenvolvidos por Mario Carvalho e que tinha como sócios os irmãos Fittipaldi e pilotos como o próprio Wilsinho – e posteriormente Emerson – e Maneco Combacau, Carol veio a se casar com Wilda Maria Pagano, com quem está casado até hoje.

Na tomada da curva da ferradura, no antigo Interlagos, Carol Figueiredo mostra habilidade ao lado de Bird Clemente.

Nas pistas do Brasil, Carol conquistava seu espaço e mostrava-se um dos maiores valores da equipe comandada por Luiz Antônio Greco e dividiu o volante em algumas provas de longa duração com uma das estrelas da equipe, Luiz Pereira Bueno. Foi ao lado dele, de Bird Clemente e de outros grandes nomes que compunham o time que ele participou da quebra dos recordes ao volante de um Gordini, em um dos maiores testes de longa duração da história.

O casamento com Wilda Pagano redeu fotos nos jornais da época. Abaixo, a amizade com José Carlos Pace além das pistas.

Carol e Wilda, pouco depois de casados, decidiram voltar para São Paulo e o caminho foi, no início, trabalhar na fábrica da cervejaria paulista (que foi posteriormente comprada pela Antártica), que pertencia ao avô de Wilda. Contudo, a afinidade com o automobilismo levou-o a vir trabalhar na Dacon, a convite de Paulo Goulart, onde passou a viver uma situação inusitada.

A Dacon estava montando naquele tempo a sua equipe de competição, quando fez o projeto de montagem dos motores Porsche nos Karmann-Ghia, e viria a ser uma das grandes rivais da Willys… onde Carol era piloto!

Nos dias de hoje, um fato como este seria simplesmente inconcebível, mas, naqueles tempos românticos, onde todos eram amigos, não era nada demais, além do que, a Willys nunca precisaria de um “espião infiltrado” ou viceversa para a Dacon.

O fato de, na inauguração do autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, em 1965 ter tido como vencedor Carol Figueiredo (de Willys) e, segundo, José Carlos Pace (com um Karmann-Ghia da Dacon) e os dois se abraçarem no pódio mostrava bem como era a relação entre os pilotos daqueles tempos.

 

Consolidado na equipe Willys, Carol pilotou a Berlineta Interlagos em diversas provas, nas mais longas, ao lado de Luizinho.

Com o fim do departamento de competições da Willys, Greco montou sua equipe e Carol era um de seus pilotos quando, em 1968, viveu o maior drama de sua carreira, quiçá de sua vida.

Nos anos 60 era comum a organização de provas de rua em diversas cidades do interior do Brasil e as 3 Horas de Velocidade em Petrópolis era uma das mais tradicionais… e perigosas. Naquele ano ainda mais, uma vez que fora invertido o sentido da prova.

Além de técnico e rápido, Carol era um piloto arrojado, fruto de sua escola nos karts e das disputas internas na Equipe Mini.

O piso de paralelepípedos era terrível no quesito aderência e naquele final de semana, parecia que estava pior ainda. uma série de acidentes que acabaram por vitimar o piloto Sérgio Cardoso, com o acidente sofrido na qualificação e, posteriormente o Joaquim ‘Cacaio’ Carlos Matos e Carol. Aloísio Henrique Kraischer, que na tomada de tempo, perdeu o controle na curva da Catedral. Bateu no meio-fio, subiu e chocou-se contra uma árvore e um poste, conseguiu deitar-se no banco e pouco sofreu, tendo apenas sofrido escoriações. Sergio, com graves lesões neurológicas, resistiu por algumas horas, vindo a falecer no dia da corrida

Em 1968, a trágica edição das 3 horas de velocidade em Petrópolis-RJ. Carol sofre um grave acidente. O socorro foi desastroso.

Ao volante do Mark I, Carol derrapou na curva da rua Floriano Peixoto, subiu nos sacos de areia, bateu no paredão, atingiu um poste, voltou, rodando e voou até se chocar com outro poste.

A retirada do carro vai de encontro a tudo que se faz para se proteger a coluna de um piloto. Carol guarda sequelas até hoje.

O pânico e o desespero tomaram conta dos que assistiam a proa e dos que participavam também. O resgate a Carol foi desastroso e poderia tê-lo deixado paraplégico pelo resto da vida. O nosso herói sofreu o esmagamento da 6ª vértebra da coluna cervical e foi retirado do carro sem proteção alguma, na base do ‘do jeito que der’ por Wilsinho Fittipaldi, que recusou-se a correr.

Foram praticamente dois meses de hospital e seis meses de colete de gesso, do umbigo ao pescoço. Felizmente, as seqüelas que ficaram – ficaram algumas – foram pequenas e quase imperceptíveis. A corrida de Petrópolis foi a última corrida de Carol Figueiredo com carros e, em Petrópolis, as autoridades locais baniram a prova para sempre.

Recuperado do acidente, Carol Figueiredo volta ao kart pela equipe Mini e rapidamente volta a ser um dos melhores do país.

Aquele ano fora mesmo terrível para Carol, que sofrera antes um outro acidente (este com um certo ar de comédia): Quando trouxeram o italiano Piero Taruffi para dar um curso de pilotagem aos nossos ases, Carol foi um dos convidados. Em uma das passagens de pista, com Piero no banco do carona e 20 Km/h – segundo o próprio Carol – ele conseguiu capotar o carro na reta oposta. Lembrando que, na época, não se usava cinto de segurança, imaginem o que foi a cena.

Recuperado e ainda com desejo de acelerar, Carol voltou, devagar, a andar com karts e retomou o contato com a equipe Mini. Como a mitológica Fênix, a ave que renasce das cinzas, Carol voltou a competir em alto nível, vencendo campeonatos, desbravando novas fronteiras e internacionalizando a sua carreira como kartista, tendo participado de algumas edições do campeonato mundial da categoria.

Carol fez parte do esquema mais bem montado já visto na época: a poderosa Equipe Hollywood tinha uma estrutura ímpar.

Mesmo no kart, sendo corrida e rápidos como eram, não se estava a salvo de acidentes e Carol também sofreu alguns… desde a inverossímil linha da pipa de um garoto que passou exatamente pelo seu pescoço, por sorte deixando apenas uma cicatriz como a saída de pista na inauguração do kartódromo de Interlagos onde foi parar em uma cerca – pasmem – de arame farpado que delimitava o terreno (se na curva 2 do autódromo havia uma ‘parede’ de eucaliptos, algo como a cerca no kartódromo era algo até banal.

Como piloto da Equipe Hollywood, Carol Figueiredo sabrou-se o primeiro campeão sulamericano de kart, no Uruguai.

Em 1970, ao lado do publicitário Mauro Salles e do genial Anísio Campos, foi um dos pioneiros da equipe mais poderosa da nossa história, a Equipe Hollywood, que tinha desde carros de gran turismo, a fórmulas… e também uma divisão só de kart, com caminhão e mecânicos próprios, tendo como pilotos, além de Carol, Maneco Combacau, Paulo Salles e os irmãos Lofti.

Naquele ano, além da equipe, Carol Figueiredo e Maneco Combacau abriram uma escola de pilotagem de kart onde muitos dos pilotos que conquistaram títulos e vitórias nos anos seguintes foram forjados.

Carol mostra, com simplicidade, um dos muitos troféus conquistados ao longo de pouco mais de uma década de triunfos.

Em sua carreira como kartista, a coroação veio, sem dúvidas, quando da realização do I Campeonato Sul Americano da categoria, em El Pinar, no Uruguai. O mesmo palco onde os brasileiros já haviam dado provas incontestes de suas habilidades ao volante, desta feita foi a vez de Carol Figueiredo mostrar porque ele é – ainda hoje – um dos maiores kartistas do país. Primeiro campeonato e primeiro título para o Brasil pelas suas mãos!

Depois que parou de correr, Carol passou a dedicar-se por inteiro aos negócios e à família. Com Wilda, teve quatro filhos, um dos quais, Flavio, seguiu os passos do pai e é hoje um dos melhores pilotos de carros de turismo do país… sendo mais conhecido pelo apelido de “Nono”.

 

No seu escriitório, no bairro de Santo Amaro-SP, Carol Figueiredo fez conosco uma deliciosa viagem pela sua história nas pistas.

Na vida profissional, foi sócio durante anos de Zeca Giaffone na Sulam, fazendo carros especiais e hoje, é consultor de uma das grandes empresas de blindagem de carros na capital do estado. Dinâmico, está sempre buscando novas alternativas e hoje faz da internet uma ferramenta de trabalho com a habilidade de quem controlava os ariscos karts que o consagraram.